sábado, 9 de abril de 2011

NOVO SUPLEMENTO NATURAL - MGGQ - GANHOS MAIORES QUE OS ESTEROIDES

Magnésio glicil glutamina quelato...


Sabe o que fez você parar para ler esse artigo? A estratégia de marketing barato alarmista. A industria de suplementos vem fazendo isso ao longo de pelo menos 20 anos. Os efeitos dos anabólicos esteróides no aumento da força e da massa muscular tornaram se óbvios para os atletas desde os anos 50, muito antes que instituições como o “American College of Medicine and Exercise” admitissem. Recordes vem sendo quebrados, no atletismo, natação, levantamento de peso, ciclismo, ano após ano. No entanto, os efeitos colaterais advindos do uso prolongado ou excessivo dessas substancias, sem monitoramento médico, também tomaram a mídia de assalto. A morte súbita de alguns atletas, no auge de seu vigor e forma física tem sido atribuída ao uso não apenas dos esteróides, mas de diuréticos, insulina, ou estimulantes do sistema nervoso central (efedrina), como o caso da velocista Florence, e dos fisiculturistas Mohamed Benaziza e Andréas Munzer.

A busca da pílula mágica que produza o corpo perfeito, sem gordura e denso em massa muscular, é tão antiga quanto a busca do “elixir da longa vida” pelos alquimistas da idade média, e já faz parte do nosso inconsciente coletivo. É explorando a fragilidade de mentes como a sua, que parou pra ler esse artigo, seja por curiosidade ou por realmente acreditar que um suplemento nutricional possa produzir mais resultado que os anabolizantes esteróides, que a industria de suplementos fatura milhões de dólares anualmente.

Os esteróides são drogas, e como tais, conseguem atravessar a membrana das células numa complexa ligação entre receptores, e então ativar o RNA e o DNA, literalmente “ligando um interruptor dentro da célula”, dando início a síntese protéica, que leva a um aumento da massa muscular. Já os suplementos são literalmente carnes e ovos pré-digeridos (no caso de fórmulas de aminoácidos) ou macarrão em pó (no caso de suplementos de carboidratos) grosseiramente falando.

Quando o atleta para de tomar os esteróides, desliga-se então o ”interruptor” dentro da célula, e nesse processo, boa parte da massa muscular adquirida é perdida, pois o mecanismo de manutenção e síntese de proteínas é desfeito com a retirada do hormônio sintético, somado a baixa produção de hormônios sexuais do próprio organismo suprimida temporariamente pelos anabolizantes. Esse fato, faz com quem muitos atletas usem esteróides ininterruptamente durante vários anos, para que nunca percam o que ganharam.

A cada 5 anos, a industria de suplementos produz um novo milagre, propondo que nutrientes em comprimidos, possam provocar o efeito de drogas. Os desavisados compram essas substancias, gastam grandes somas em dinheiro, e quase sempre frustram se com os resultados. Os anos 80 começaram na moda dos aminoácidos, logo depois veio o Cybergenics, com fotos publicadas em revistas americanas, de consumidores comuns, “antes e de depois do uso de Cybergenics”. Em seguida vieram o Picolinato de Cromo, Dibencozide coenzima B12. A partir dos anos 90 popularizaram os anticatabólicos e liberadores hormonais. Substancias como Pro HGH e Acetabolan, pretendiam respectivamente provocar a liberação de hormônio do crescimento e da testosterona, aumentando a massa muscular. Obviamente os efeitos nunca puderam ser provados, porque eles literalmente não acontecem, e os fabricantes desses suplementos jamais conseguiram ter seus pseudo-estudos publicados em qualquer jornal científico indexado e sério!

A ultima novidade popularizada no Rio de Janeiro chama-se MGGQ: “Magnésio Glicil Glutamina Quelato”. A glutamina é um aminoácido que vem sendo muito estudado. Uma busca na Internet em indexadores como o MEDLINE revelará muitos artigos, alguns apontando possíveis benefícios para atletas, e mesmo o seu uso clínico. Já o magnésio é um mineral, disponível através da alimentação e de suplementos em caso de alguma deficiência. O que chama a atenção em relação ao MGGQ são as afirmações absurdas de que o seu uso promoveu resultados maiores que o uso de testosterona em um suposto estudo que envolveu “fisioculturistas”. Nesse estudo 23 “fisioculturistas” foram divididos em um grupo de 12 atletas que utilizaram 2000 mg de testosterona por dia, e um grupo de 11 atletas que utilizaram 240 mg de MGGQ. Ao final de 8 semanas, o grupo testosterona aumentou 3 kg de massa magra, contra 3.2 kg do grupo MGGQ. INFORMACOES CONFUSAS: Em primeiro lugar, o local do estudo, universidade, país de origem não são mencionados no artigo, o que levaria a crer que o mesmo teria sido realizado no Brasil, no entanto ao final do texto, constam alguns nomes sob títulos de “nutricionista” e “farmacêutico”, responsáveis pela tradução, e um “médico”, responsável pela revisão. Se o texto foi então traduzido, em qual revista internacional o mesmo foi publicado? A revista brasileira em que consta essa “tradução’, chama se “Revista de Oxidologia” (abril/maio/junho 2002). O site da mesma apresenta se confuso, links parecem levar a lugar algum, e só existe um telefone para assinatura de revistas, não há qualquer endereço ou email pra contato. Nas referencias que constam ao final do artigo, estudos não publicados são citados, notas sobre patentes mencionadas, e só consta uma única menção diretamente ligada a substancia, que na verdade não é de uma revista cientifica indexada, mas tem o titulo da própria substancia e de uma suposta marca comercial do produto. Os demais artigos citados são notas de livros ou artigos que falam sobre magnésio ou glutamina. Pura enrolação!

TESTOSTERONA: A maior parte dos ésteres de testosterona estão disponíveis apenas em forma injetável. A titulo de curiosidade, o New England Journal of Medicine publicou um estudo no qual a 600 mg de testosterona injetada semanalmente, proporcionou um ganho de 12 kg! (BHASIN, 1996) Nas academias, atletas com mais de 100 kg, quando utilizando altas doses de testosterona tem uma média de 500 a 1000 mg por semana, ocasionalmente acrescida de 200 mg de outra substancia. Isso somaria no máximo 1700 mg por semana, e em 8 semanas produz ganhos médios de 8 a 14 kg! No estudo obscuro, os atletas teriam utilizado 2000 mg POR DIA! Isso totalizaria ao fim de uma semana 14 gramas de anabolizantes! As maiores doses já mencionadas entre os praticantes e revistas técnicas ficam em torno de 6000 mg por semana, e é considerada altíssima, a maior parte utiliza bem menos do que isso. Se algum demente algum dia utilizar 14 gramas de testosterona por semana, ele morrerá em pouco tempo ou terá 250 kg de puro músculo... Piada não é ? Pois é essa quantidade que foi comparada aos 240 mg de MGGQ e produziu apenas 3 kg... Da pra acreditar em mais um novo suplemento ?


obs.: Artigo escrito em 2004, quando o antigo "Jornal do Brasil" publicou em um de seus cadernos uma matéria assinada por um ex fisiculturista sobre o produto milagroso...

obs 2: No PDF que circulava pela rede na época, falava se em 2000 mg/ dia de testosterona, o link atual http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?id_materia=4005&fase=imprime, faz mensão a um artigo que cita o mesmo "estudo" , só que dessa vez com 2 mg... De qualquer maneira, 2 mg diárias estão abaixo da produção endogena que fica em torno de 5 a 7 mg/dia. Se for isso de fato, o unico efeito possível com uma dose dessas é a supressão da testosterona e LH endógenos por uma dose exógena pífia para a observação de efeitos anabólicos. Com 2mg/dia no máximo manteriamos as funções sexuais normais... Caso o estudo realmente tenha existido, não seria nehuma surpresa os menores resultados no grupo testosterona.Lembrando que em grandes jornais como o New England Journal of Medicine, doses de até 600 mg ja foram utilizadas em humanos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A RELATIVIDADE DA FORÇA #2


...Dando continuidade ao tema abordado na minha última matéria, na edição #82 da revista Musculação e Fitness-JMF, discutirei aqui o que é ser forte, o que é qualidade de vida, o que é excesso de peso nos exercícios e alguns princípios do treinamento desportivo.


O que é qualidade de vida? Essa pergunta anda na minha cabeça. Não que eu já não saiba a resposta, ou que o velho bom senso não possa demonstrar. Não é preciso ter um PhD pra isso, embora na área da saúde: medicina, fisioterapia e principalmente educação física, exista uma obliteração cega e burra, construída em cima de preconceitos, que nem as graduações ou mesmo pós graduações, sejam elas latu, strictu ou mother fucker senso conseguem remover... Que limites imbecis definem onde termina o nível de exercício permitido aos cidadãos comuns que buscam “qualidade de vida” e os atletas que estão condenados a doença? Sim, porque esporte agora não é mais saúde. Saúde é encher a cara, engordar, beber e viver com aquele sorriso ébrio regado a cerveja no final do expediente de 8 horas. Quem treina pesado diariamente e não se contenta com o corpo deprimente resultante da mistura de bunda na cadeira, batata frita e cachaça, é vigoréxico. Quem é preocupado com a alimentação, e considera a questão séria o suficiente pra conferir o rótulo dos alimentos, verificando o total de carbohidratos, calorias, gordura-trans, é segundo os psiquiatras “otoréxico”. Nesse caso, toda uma ilustre profissão é doente. Sim! Os pobres nutricionistas, coitados! Eles que passam anos estudando a composição dos alimentos, o que inclui obviamente a observação de rótulos, para nos orientar a fazer escolhas alimentares mais saudáveis são também doentes.


Mas e então? Quem é saudável? O que é qualidade de vida? Essa semana, por uma estranha coincidência, ou como diria um contemporâneo de Freud (Jung) “sincronicidade”, dois episódios ocorreram simultaneamente na academia. Um casal de amigos voltou da região dos lagos, onde passaram o réveillon. Comprometidos que são com um estilo de vida ativo, que inclui musculação pesada e atividades aeróbias, logo procuraram uma academia local pra uma “diária”. Diárias são aulas avulsas nas academias, que qualquer um pode fazer quando estiver viajando, longe de casa. Não se trata de um casal “comum”. São chefes de família, e já passam bastante dos 40. Ele: alto esguio, com músculos bem definidos, sem barriga, não conseguiria vencer uma competição de fisiculturismo com esse corpo, mas utilizando as técnicas destes, conseguiu construir um físico muito bacana para sua idade, que contribui diretamente pra sua saúde, auto estima e sim, QUALIDADE DE VIDA! E ela? Apesar da idade, embora aparentando uns 10 anos a menos, compete de igual pra igual com a filha pela atenção masculina, que 20 anos mais nova, também pratica musculação.


Chegando lá, após iniciar os treinamentos e colocar um pouco mais de peso nas barras que o “politicamente correto” do ponto de vista acadêmico, logo foram abordados pelo professor local. Vocês já devem imaginar o naipe do sujeito: Uma prancheta; as ridículas meias ¾ que fazem com que professores de educação física se pareçam com garotinhas cursando o normal; a ausência de calos nas mãos que denotem qualquer intimidade com os pesos, além é claro de um físico que nem de longe remete a alguém que faça atividade física! E começa o besteirol. O sujeito os aborda e começa a discursar sobre qualidade de vida:


-- Olha, não coloque muito peso na rosca bíceps, isso pode criar compressão nos seus discos intervertebrais...


-- Você faz rosca bíceps “21”*? Isso não é qualidade de vida... -- Se você não é fisiculturista, então tem que treinar pra ter qualidade de vida...


Enfim, o Mister Qualidade de Vida Mother Fucker Guy, na melhor das intenções em prestar serviço, torrou o saco o quanto pôde. Falou estas e muitas outras besteiras, e virou motivo de piada pros alunos na volta da viagem.

Na foto os bíceps de Martha. Condenados por fazer 21 repetições... Por causa disso o exercício antes benéfico, fará mal a saúde não é professor? rs...

O segundo episódio é o diálogo entre um de meus alunos, que começou a apresentar dores em um dos ombros, e um fisioterapeuta, que também tem formação em educação física:


-- Olha, essas dores são resultado de excesso de peso. Quantos kg você pega no supino?


-- Ah, já cheguei até 60 kg!


A essas alturas, não sei que diabos o fisioterapeuta entendeu, se eram de fato os 60 kg totais ou a mania dos leigos em considerar o peso somente de cada lado da barra, o que nesse caso resultaria em pelo menos 120 kg, e não 60...


-- Mas 60 kg? Isso é peso de atleta. Você é atleta? Você não tem estrutura pra isso...


Vou parar por aqui. Essa última frase da uma tese inteira, ou duas! Uma somente pra área biológica, abordando as adaptações ao treinamento de força, a outra na área social, lidando com estereótipos e uma dúbia capacidade de advinhação: “Você não tem estrutura pra isso”,,, Um campeão olímpico de luta livre que não recordo o nome uma vez disse: “winning is a matter of Will, not matter of skill”, ou seja: vencer é uma questão de vontade, e não de habilidade. O mundo dos esportes está repleto de exemplos de atletas que venceram limitações e adversidades, como o dele que venceu o câncer. Obviamente existem limitações genéticas que selecionam naturalmente os que têm condições de chegar ao ouro olímpico, mas pelo meio do caminho, na busca pelo auge, o cidadão comum ou o atleta mediano, pode colecionar muitas pequenas vitórias, mesmo sem entrar pro Guiness book. Johny é um desses exemplos. Quem então é capaz através de uma bola de cristal dizer até que ponto você pode ir sem que antes você mesmo tenha tentado?


Amigo dos tempos de adolescência, Johny estava deprimido e magro. Com pouco mais de 50kg distribuídos em 175cm de altura, havia sido literalmente “desenganado” (palavra engraçada, minha avó falava isso) por um fisiatra (fisiatra em linguagem não politicamente correta quer dizer médico de velho) após o diagnóstico de uma hérnia de disco. Johny, apesar de jovem, foi proibido de tudo, condenado ao ócio, afastado, negado, coisa que os médicos com suas gordas barrigas AMAM fazer!


-- Olha, você vai ter que aprender a viver com limitações. Nada de .......; ......; ..... e também nada de.....; .............; ............. (complete os pontinhos com toda atividade que você imaginar. Até o Zazen, prática de meditação Zen budista devia estar proibida por causa do tempo sentado ao chão de pernas cruzadas, afinal alem de ruim pros joelhos poderia também comprimir os discos...).


Pra esse médico pelo jeito, o passo seguinte seriam as muletas ou uma cadeira de rodas pro meu amigo. Fisioterapia, remédios, privações nada dava uma solução definitiva e as dores eram constantes, mais ou menos fortes! Foi quando reencontrei Johny, que cansado, resolveu dar uma chance: a mim, e aos meus melhores amigos: barras enferrujadas, pesos livres e halteres! Não foi difícil convencê-lo, uma vez que haviam claras divergências entre o bom fisioterapeuta (digo BOM porque bons fisioterapeutas podem ser tão raros quanto bons professores de educação física, ou médicos) que na época lhe dava algum acompanhamento e o tal médico de velhinhos, ooops, fisiatra!


Aliás, uma nota de esclarecimento ao leitor: os planos de saúde pagam, PASMEM, 4 a 6 reais por sessão aos nossos colegas. Se esta incluísse manipulação, propiocepção e fortalecimento; todos componentes da cinesioterapia, ou seja, a parte da fisioterapia que realmente CURA E REABILITA, teríamos uns 60 minutos! O que resta pros caras fazer? Produção em série! Primeiro choquinhos no TENS, depois talvez ondas curtas, e alguns ainda usam o forno de bier, espécie de microondas só que pra gente. Nele você gira um reloginho pra esquentar o paciente, que agora já ta com a carne amaciada. Quando bate o tempo: PLIM PLIM. O paciente já esta ao ponto, é só comer! Duração do preparo? Vinte a trinta minutos. Próximo por favor...


Mas voltando ao assunto... Bom, o tempo passou. Estamos juntos a alguns anos, acho que uns seis talvez. De lá pra cá Johny ganhou pelo menos uns 20 kg. Não! Ele não conseguiu vencer o Mr Olympia de fisiculturismo e nem o campeonato brasileiro de levantamento de peso com esses 20kg, mas utilizando técnicas de treinamento adaptadas desses 2 esportes, recuperou sua qualidade de vida! E o que é qualidade de vida pra Johny? È poder correr na rua (atividade que ele adora, embora eu abomine), levantar pesos, ser fisicamente ativo sem ter lombalgia toda semana, fazer sexo sem ter câimbras por ir além das posições politicamente corretas que não forçam a coluna, etc. Um dia desse ele resolveu ate subir escadas fazendo a mudança de um parente: móveis pesados, televisão, etc. Claro que deu merda! Na segunda feira o quadrado lombar tava em espasmo, travado. Mas cacete! Olhem que progresso! O espasmo se foi com alguma massagem, emplastros vagabundos vendidos em farmácia, compressas quentes e uma ajudinha do professor que trabalha com avaliação física na academia, mas teve uma iniciação em quiroprática. No passado, bastaria se abaixar subitamente pra “travar” a coluna! Na verdade Johny me contou que já “travou” no meio da rua! Se esse progresso não é qualidade de vida, não sei que outro nome pode ter!

Na foto Johny, portador de hérnia de disco, e condenado ao sedentarismo por um profissional de saúde sendo absolvido pelo rei dos exercícios, AGACHAMENTO, em sua forma menos politicamente correta = PROFUNDO! (Johny atualmente usa 90kg tanto para os agachamentos quanto para o levantamento terra que ilustra o início da matéria).

Falando em nomes, que tal treinamento funcional? Esse nome sem vergonha vem sendo usado por quem não conseguiu vencer o preconceito contra os pesos livres, e toda força, explosão, equilíbrio, ganhos em propiocepção e massa muscular que só eles desenvolvem! Pelo menos em curto espaço de tempo quando comparado a outras atividades. Toda sorte de malabarismo e contorcionismo exóticos tem sido embaladas com nova roupagem e rotuladas de “funcional”, algumas interessantes, outras apenas coisa de marketeiros.


O fato é que tem gente que não gosta de musculação, e outras que tem preconceito. Peso é coisa de gente burra, bronca, egocêntrica, vigoréxica e etc. Se você não gosta, procure urgentemente outra forma de exercício, pois exercitar se faz bem pra saúde e pra cabeça, mas se você busca outras atividades apenas pra parecer “descolado”, “zen” ou o cacete, saiba que até o Pilates possui uma boa base de “treinamento contra resistência”, o mesmo principio da musculação, embora nesse caso resistência vem das molas e não dos halteres! Idem pra ginástica que é apenas uma aula de musculação em grupo com pesos leves.



PRA QUE SERVE A MUSCULAÇÃO, OU TREINAMENTO DE FORÇA?


Já ouviram a expressão: “Entendeu ou quer que eu desenhe”? Ai vai...


Pegue um peso no chão e erga-o pra cima do armário ou uma alta pratileira em casa ou no trabalho:


> Você tem um clean and jerk, desenvolvimento completo, ou o nome que quiser...


Arraste o seu melhor amigo bêbado caído no chão, tire o botijão de gás de dentro de casa ou troque o pesado jarro de planta do lugar:


> Você tem um levantamento terra!


Tente empurrar o carro velho do seu melhor amigo que insiste em morrer nas ladeiras e desce sobre você enquanto tenta manter os braços esticados...


> Você tem um supino de amplitude completa com direito a pausa isométrica no peito igualzinho aos powerlifters!


Finalmente, o mais odiado dos ortopedistas,, esse vai ser fácil de advinhar: Suba os altos degraus do ônibus. Sente e levante seu rabo todos os dias pra comer e depois pra defecar. Sente se ao chegar no trabalho, levante se pra ir embora. Sente se pra ver TV, levante se para dormir. Ajoelhe se pra rezar e depois levante se (impossível manter os joelhos flexionados apenas a 90 graus aqui, malditos pentelhos da educação física).


> AGACHAMENTO!!!

Ninguém avisou ao nosso amigo que era proibido flexionar os joelhos mais que 90 graus. Sorte não é? Se houvesse professor por lá esse pobre senhor não iria conseguir descascar seus coquinhos em paz... Da mesma forma que não se consegue treinar em paz em algumas academias... Agora o leitor já sabe: Se algum professor encrencar com seu agachamento, mande o catar coquinhos!

Então eu pergunto: Existe atividade que mais mimetize as ações que executamos em nosso cotidiano e por tanto mais funcional que o trabalho nos exercícios básicos com pesos livres? Mais uma vez repito: Se você simplesmente não acha esteticamente atraente, ou tem preconceito contra músculos e contra musculosos, siga em frente. As aulas de malabarismo com bolas possuem alguns benefícios propioceptivos, posturais e um inerente gasto calórico. Se você no entanto tem o tempo limitado e quer o MÁXIMO retorno por cada minuto empregado no exercício, nada oferece um resultado tão completo e RÁPIDO quanto o treinamento de força com pesos livres! Força, resistência, velocidade, massa muscular, equilíbrio, coordenação, postura, redução da gordura e por ai vai, até alguma melhora no VO2 (condicionamento aeróbio). Pacote completo!


Onde termina o treinamento para qualidade de vida e começa o do atleta? Atletas e não atletas são ambos humanos, sua fisiologia portanto é a mesma, ambos respondem aos estímulos através da adaptação. Isso é coisa básica que se aprende na faculdade com o nome de “princípios do treinamento”, aí vão os que me lembrei::


Adaptação,


Individualidade biológica,


Continuidade,


Sobrecarga progressiva,


Especifidade


...e alguns autores listam interdependência volume-intensidade.


Se esqueci de algum desculpem, mas esses são os mais importantes, e embora básicos, são CONSTANTEMENTE estuprados por TODOS os profissionais de saúde que insistem em falar besteiras e contaminar a opinião publica com seus próprios preconceitos em relação ao exercício, sobre tudo quando a questão são os exercícios de força. Todo atleta foi sedentário até inciciar a sua prática esportiva, seja ela qual for. Todo atleta começou com um programa rudimentar de exercícios, aprendendo fundamentos simples e evoluindo para os mais complexos. O volume semanal de séries, repetições, metros nadados, quilômetros corridos vai sendo aumentando GRADUALMENTE, ano após ano, e esse processo é O MESMO, pro cara que um dia vai competir, ou pra quem se exercita apenas pra superar seus limites por puro prazer. Em algum momento acontece uma coisa que faz toda diferença na vida do atleta, pra melhor e pra pior: o DINHEIRO! Surge um patrocínio; ele vira ídolo, inimigo ou mártir de algum país ou ideologia política, e finalmente aquilo que um dia ele fez por prazer, vira um enorme fardo, como a cruz que Cristo teria carregado nas costas. E então as pessoas se surpreendem dos atletas recorrerem ao doping... Nesse ponto, o atleta de academia tem uma escolha. Ele pode parar, reduzir seu ritmo. A maior parte das lesões regridem espontaneamente. E o atleta da mídia? Injeções de corticóides, analgésicos, anti inflamatórios, esteróides e estimulantes, claro! Quem perde o jogo, perde a visibilidade. Todo mundo quer tirar foto do lado do campeão. Filho bonito todo mundo quer ser pai, é ou não é?



OS PRINCÍPIOS ESPORTIVOS DA ADAPTAÇÃO E DA SOBRECARGA PROGRESSIVA APLICADOS NA ACADEMIA


O ombro dolorido e o supino acima citados são um exemplo perfeito. Johny não faz supino com 120 kg, ou seria de fato um competidor de powerlifting na categoria 75 kg. Ele realiza em torno de 50 kg para 12 repetições, e 60 kg para algo entre 3 a 6 repetições, não existe nada de sobre humano nesses números. Quem vive dentro de academias ao invés de consultórios vê supinos com essa carga todos os dias. Para os desavisados, Johny não chegou na academia e em seu primeiro dia tentou 60 kg. Na verdade se me recordo bem, seu supino mal chegava aos 10kg de casa lado (30kg totais numa barra de 10kg). Um dos problemas que tivemos ao longo desses anos foi justamente lidar com dores nos ombros causadas por má ergonomia associada ao seu trabalho: teclado em uma mesa, mouse alto na outra e monitores diversos mal posicionados. As dores foram desaparecendo à medida que as articulações iam se adaptando ao esforço e aumentava a massa muscular (princípios da adaptação e continuidade). À medida que as articulações iam aceitando os estímulos e as dores diminuíam, as cargas eram aumentadas dentro de sua capacidade de adaptação (princípios da individualidade biológica e da sobrecarga progressiva). Os anos passam, e quem procurou a musculação apenas pra deixar de ser sedentário percebe nela uma atividade capaz de transformar o corpo, mas percebe também que com o passar dos anos, a velocidade dos ganhos diminui, e são necessárias cargas ainda maiores de treinamento (principio da sobrecarga mais uma vez), e não apenas isso, é necessário alguma forma de planejamento para que os estímulos provocados por essas cargas não sejam tão pequenos para apenas “excitar”, não conseguindo desenvolver os músculos, ou tão grandes, a pontos de trazer as lesões junto com os ganhos. A esse planejamento, chamam de periodização, uma metodologia vinda da antiga União Soviética que ganhou muitos teóricos no ocidente, nem sempre corretos ou práticos em suas abstratas idéias. Um somatório de características anatômicas do sistema músculo-esquelético, fatores do estilo de vida incluindo nutrição; sono; estresse; trabalho; quantidade de fibras musculares e resposta endócrina interferem na capacidade de se adaptar. Em diferentes momentos da vida, a mesma carga pode proporcionar ganhos e em outros machucados, dependendo do somatório das outras “cargas” supra citadas oriundas do próprio viver.


CARGA


Mas afinal o que é carga? Carga é todo agente de estresse! Cargas podem ser físicas, emocionais ou até espirituais (sarava!). Deixemos as emocionais pros psicólogos e as espirituais pros pais de santo!

Carga, tratando se de exercícios não diz respeito somente ao peso que você levanta. Nada mais equivocado! Carga é todo o somatório de estímulos incluindo o peso na barra, o número de séries, o numero de repetições, o número de vezes em que a mesma musculatura é treinada na semana (carga muscular) e tudo isso junto, ou seja, o total de exercício semanal, que constitui uma carga orgânica geral. Que um leigo acredite que Arnold Schwazenegger tomou anabolizantes por duas noites ou 2 meses, e acordou forte tudo bem, ou que alguém que agacha com 400 kg tem uma mutação genética sobre humana inatingível...ok... Agora, profissionais de educação física, médicos, fisioterapeutas insistindo em besteirol não dá! Eu sei que a maior parte de vocês não assina nenhum jornal cientifico, embora devesse após ter finalizado a faculdade, mas o que vocês fizeram com os livros de fisiologia? Rasgaram? A redução de cargas dentro do planejamento de treino não pode ser vista como um simples “reduza o peso no supino”. Por mais paradoxal que pareça, pesos grandes não permitem um grande volume de ações articulares. Um atleta que realizar leg press para 3 séries de 6 repetições com 80% de sua força máxima, terá submetido as articulações a um total de apenas 18 repetições. Uma iniciante que tem medo de ficar forte e por isso realiza algo em torno de 4 séries de 15 repetições terá ao término do treino realizado um total de 60 repetições. Se a articulação em questão apresenta algum processo inflamatório, obviamente o grau de estresse relativo (estresse por repetição, ou L.E.R.) será muito maior no treinamento “leve” do que no treinamento “pesado”. Nas aulas de spinning por exemplo, os problemas de joelho apareciam com mais freqüência nos treinos leves, onde o giro é muito veloz e freqüente (alta rotação por minuto) do que nos pesados, onde devido a carga ocorrem menos rotações, leia-se: MENOS REPETIÇÕES E MAIS PESO! Se quisermos dar um ótimo exemplo de atividade leve, e reduzir a intensidade ainda mais, que tal falarmos da posição sentada? Após horas seguidas na posição sentada, com as costas curvadas, dia após dia, semana após semana, o acúmulo de estímulos de baixíssima intensidade gerado nessa postura cresce em magnitude de tal forma que acaba proporcionando uma carga final ENORME nos discos e ligamentos. Após meses ou anos, essa grande carga de baixa intensidade é capaz de contribuir para instabilidade na coluna vertebral e hérnias de disco!


ADAPTAÇÃO E O TREINO ATÉ A FADIGA MOMENTANEA


Para continuidade dos ganhos é fundamental não só a continuidade dos estímulos mas os incrementos progressivos, graduais nas cargas, isso é básico! A lenda diz que Milo de Crota levantava um pequeno bezerro, que cresceu até virar um boizão junto seus músculos. Milo não começou com o boi! Da próxima vez que vocês assistirem a TV vendo alguém levantar cargas aparentemente sobre humanas, saiba que por trás daquilo, existe um treinamento de dez anos ou mais, e que aquele atleta pode ter começado tão fraco ou mais fraco que você! Se Johny usa atualmente 50 ou 60 kg em seu supino, é porque ao longo dos anos seu sistema músculo-esquelético adaptou-se para tal. Livros de fisiologia do exercício, e mesmo instituições como o American College of Medicine and Exercise ou a National Strength ad Conditioning Association concordam que os ganhos em massa magra ocorrem predominantemente quando treinamos na faixa de 65 a 85% de 1 RM. Uma alternativa simples a testes de carga máxima é deixar de lado os percentuais e simplesmente executar repetições até a fadiga. Isso é possível porque já sabemos existir correlação entre o numero máximo de repetições com determinada carga, e o respectivo percentual de força associado. Dessa forma, alguém que faz um supino de 50 kg e não consegue realizar mais do que 10 repetições, pode se assegurar de que esta na faixa dos 70% RM aproximadamente.


Ortopedistas são famosos por sentenciar à cadeira de rodas qualquer individuo com uma barra nas costas agachando. As pragas e maldições rogadas são de que os joelhos irão se partir em algum momento, as vértebras explodir e os discos voarem pelos céus como OVNIS. Tudo discurso de bunda na cadeira! Muito se fala, muito se teoriza e pouco se testa na área da saúde. Ninguém se recicla no Brasil? O trabalho de pesquisadores como Escamilla e Dickerman que foram de fato medir e testar em MODELOS HUMANOS envolvidos em levantamento de peso extremo mostra por exemplo, que as altas cargas utilizadas estão dentro dos limites tensionais aceitos pelos ligamentos dos joelhos, e que a crença tida como verdade de que as vértebras humanas teriam um limiar de estresse máximo em torno de 18000 newtons caiu por terra, após a análise através da ressonância magnética e densitometria óssea da coluna de um competidor de powerlifting. Esse atleta agachava com mais de 450 kg, carga que representa 36000 newtons, todos em cima da coluna do atleta, ou seja, O DOBRO do postulado teórico! Alem de não se partir, a estrutura óssea e ligamentar do competidor apresentou se integra mesmo após anos de treinamento, e de quebra foi registrada a maior densidade mineral óssea já encontrada num ser humano!


Moral da história: Caros “doutores”, por favor parem de enfiar os velhinhos nas piscinas de hidroginástica! Esse povo precisa de cálcio nos ossos, e somente PESO pode proporcionar isso !


“O ser humano não nasceu pra correr”,, ok,, ou teríamos rodas ao invés de pernas, e seriamos carros ao invés de humanos!


“O ser humano não nasceu pra nadar”,, ok, ou teríamos guelras e seriamos peixes!


“O ser humano não nasceu pra voar”,, ok Santos Dummont, daqui em diante viajar pra América só a pé!


Temos a tradicional: “Levantar pesos não é natural pro ser humano”...


... e finalmente alguns pesquisadores condenam até nossa postura bípede, e dizem que pagamos um alto preço porque algum maldito ancestral La pela pré-historia resolveu se levantar. Para esses, deveríamos estar de quatro até hoje!

Alguns milhões de anos mais tarde, nosso primo distante, antes forte e saudável , seria impedido de realizar suas atividades naturais dentro dos centros de "qualidade de vida", chamados de "academias"...

Enfim caro leitor, se você já esta de saco cheio dessa ladainha de que tudo faz mal, de que nossos corpos são feitos de cristal, e de que qualquer coisa que você fizer alem de ficar na cadeira falando mal dos outros, discutindo futebol e big brother, inicie já o seu treinamento de força! E não tenha medo de aumentar suas cargas, pois força, é uma questão relativa... Quem não anda pra frente não sai do lugar! Redundante não é? Ok, mas quem não aumenta o peso, não fica forte. Simples assim!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

JMF - Jornal da Musculação e Fitness

A JMF é a melhor publicação técnica na área do treinamento de força do Brasil. Fico feliz em ser o seu mais novo colaborador. Nossa equipe conta com pesquisadores, médicos, atletas, treinadores, enfim, gente que não somente estuda, mas vivencia na prática, e fala com conhecimento de causa! Pra você que gosta do meu blog, fique antenado. Em minha coluna "POWERLIFTING" estarei discutindo diversos temas ligados ao treinamento, relevantes para nós powerlifters, para atletas de outras modalidades, e para você, que mesmo não sendo competidor, acredita que força é uma qualidade física que muito pode contribuir para uma melhor saúde, longevidade e qualidade de vida. Nesse mês estou discutindo FORÇA RELATIVA, indo de situações do cotidiano das academias até exemplos entre os melhores powerlifters do país. Vejo vocês lá! http://www.jmfbrasil.com.br/home/

domingo, 1 de agosto de 2010

POSICIONAMENTO DA BARRA NO AGACHAMENTO


Após alguns meses sem escrever, tocando pra frente projetos pessoais, estou de volta. Abordarei aqui um ponto importante, mas pouco discutido. Uma das primeiras coisas que aprendi sobre o powerlifting; ou talvez a primeira tirando os tapas e a amônia, foi que a barra no agachamento deveria ser posicionada mais abaixo nos ombros. A transição não foi difícil, uma vez que é muito mais confortável colocar a barra sobre o deltóide posterior do que esmagando o trapézio, ainda mais quando o peso na barra começa a passar dos 100 kg. Alguns iniciantes fazem na verdade muito pior. Orientados por professores de Educação Física sem os devidos calos nas mãos, que repetem como gravadores o que ouvem de seus pré históricos mentores, sem se dedicar minimamente aos hábitos da leitura; do uso do senso crítico; ou de no mínimo TREINAR, posicionam a barra tão alta sobre o trapézio que a mesma começa a esmagar as vértebras cervicais, sobre tudo a C-7. É por essa razão que muitos não conseguem realizar o agachamento sem enrolar algum tipo de almofada ao redor da mesma. Pra piorar o quadro, em seguida orientam os alunos para a SMITH MACHINE. Para quem não conhece, trata se de uma máquina que possui duas longas guias laterais por onde a barra desliza num plano fixo, apenas para cima e para baixo. Até aí tudo bem, máquinas podem ter seus usos, mas o que se segue, numa justificativa de “segurança” é simplesmente ridículo. Dando continuidade as muitas obssessões e fetiches dos professores de educação física, como a de sempre manter a coluna ereta, e a de nunca flexionar um membro a mais de 90 graus, os pés são então posicionados láaaaaaaaa na frente. Dessa forma ao invés da transmissão de força ocorrer para baixo e para cima, sentido pelo qual a barra obrigatoriamente terá de deslizar sobre as guias verticais, passa a ocorrer obliquamente. Ao decompormos essa força, parte dela é perdida empurrando o pescoço para trás contra a barra, ao invés de diretamente para cima, caso os pés estivessem diretamente ABAIXO da barra. Não é de espantar que muitas pessoas apresentem queixas de dores lombares ou cervicais. Agora você leitor já sabe. O problema não é com o agachamento, mas sim com a forma estúpida com que se insiste em utilizar essa maldida maquina para todas as pessoas.

Essa parece ser a única forma "conhecida" de se usar esse aparelho. Observem os pés adiantados empurrando o PESCOÇO para trás contra a barra... Há alguns anos atrás um professor de biomecânica na universidade nos contou sobre os problemas sérios que tiveram ao tentar realizar testes de 1RM para produção de um artigo utilizando essa forma de execução na Smith Machine. Os sujeitos do estudo simplesmente não conseguiram dar continuidade ao mesmo devido à forte dor lombar, e somente após adotar a mesma posição padrão dos pés sob a barra como usada no peso livre, o estudo pôde prosseguir. Agora com os pés diretamente embaixo da barra. Posição mecanicamente eficiente mas "proibida" para os que acham que os joelhos nunca podem ultrapassar a linha dos tornozelos... Mas voltando ao assunto... Mecanicamente, quando posicionamos a barra mais abaixo nos ombros, automaticamente teremos que inclinar o tronco à frente para mantermos nosso centro de gravidade, mesmo que essa inclinação seja muito sutil. Ela pode ser sutil ao observador, mas não é sutil pra musculatura paravertebral. Se essa posição passa a colocar o quadríceps numa vantagem mecânica relativa; o que o tornaria em tese menos exigido, os glúteos e ísquios passam obrigatoriamente a receber mais carga. Os paravertebrais que são o elo de ligação entre a barra e os músculos do quadril também! Na verdade os agachamentos promovem mais ativação dessa musculatura profunda das costas do que todo esse bando de exercícios terapêuticos e outros apelidados de funcionais que estão por aí. Somos praticantes de um esporte extremo, e em relação a nossas práticas, tendemos também a ser extremistas. Se for pra comer, comemos muito, se for pra treinar idem. Se duas ou três doses de whey por dia ajudam, que tal um pote inteiro? ...e isso não foi uma piada! De qualquer forma prefiro leite integral mesmo. Após tantas voltas, é sobre isso que quero falar nessa matéria. QUAL A POSIÇÃO CERTA PRA BARRA DE AGACHAMENTO NO POWERLIFTING? O mais baixo possível? Não! Algumas federações como a IPF impõem limites quanto a isso, de forma que se a barra estiver a sei la quantos centímetros abaixo do topo do deltóide anterior (vide livro de regras) o árbitro ira gentilmente mandar que você a guarde e a posicione mais alto. Eu acho isso um saco, já aconteceu comigo a uns anos atrás, mas creio que seja a tentativa de impedir que o agachamento dos basistas se transforme num “bom dia” (exercício good morning), ou que barras comecem a rolar pelas costas de atletas nas competições. Scott Cartwright do Super Training Team com a barra alta

Existem mais algumas questões interessantes: 1- Todas as federações exigem uma profundidade mínima para considerar como válido um agachamento. Quando a barra é posicionada muito abaixo nos ombros, o atleta já de pé terá seu tronco inclinado excessivamente a frente. O tronco e o abdômen... (mentira, pra maioria de nós é barriga mesmo!) poderão ir de encontro às coxas antes que o quadril tenha abaixado o suficiente para atingir os níveis paralelo ou abaixo, ou seja, o tronco e o quadril fecham antes da profundidade mínima ser atingida.


2- Nem sempre dispomos da barra ideal, revestida em aço preto fosfatizado, e recartilhada nos lugares certos. Os donos de academia querem barras cromadas brilhantes, e quando não possuem as mesmas, mandam até lixar as recauchutadas que tiverem para que pareçam novas, ou então pintam, ou enrolam em borrachas toscas, enfim, todos vocês convivem com isso. Qual o problema então? O grau de aderência do material nos seus ombros terá um efeito DIRETO em o quanto você conseguirá segurar de peso. Com a barra alta no trapézio; posição dos levantadores olímpicos, a mesma se encontra equilibrada, você não gastara muita energia para manter essa posição, mas se a barra for lisa os benefícios mecânicos da posição baixa podem ser anulados pelo gasto de energia necessário para mante-la sobre os ombros.
Steve Goggins na capa da Powerlifting Usa. Ele possui um recorde mundial no agachamento com 501 kg, e usa a barra bem baixa.
Quem se beneficia então da barra baixa? Basicamente todos que tem acesso a barras boas e particularmente os que têm o tronco comprido em relação às pernas. No caso oposto, ou seja, dominância relativa do fêmur, a inclinação excessiva do tronco a frente pode impedir que se consiga atingir a profundidade ideal nos agachamentos. O reforço da musculatura paravertebral pode e deve ser feito para que se consiga suportar grandes cargas nessa posição sem que a coluna perca seu arco normal durante a execução.

Bons treinos!


Denilson Costa


Artigos sugeridos:


Capozzo A, Felici F, Figura F, Gazzani F (1985). Lumbar spine loading during half-squat exercises. Med Sci Sports Exerc 17 (5): 613-20.

Souza GM, Baker LL, Powers CM (2001). Electromyographic activity of selected trunk muscles during dynamic spine stabilization exercises. Arch Phys Med Rehabil 82 (11):1551-7.


Verifique também minha revisão publicada em:

Rev Port Cien Desp 2(V) 224–234 ( O efeito do treinamento contra resistencia na sindrome da dor lombar, Denilson Costa , Alexandre Palma )

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

WEST SIDE BARBELL CLUB - o método conjugado - Prof. Denilson Costa


Frequentemente amigos e atletas do Rio de Janeiro e outros estados, comentam sobre a WESTSIDE BARBELL CLUB e seus métodos nada convencionais de treinamento. Resolvi escrever essa matéria para discutir alguns de seus conceitos com os atletas brasileiros, uma vez que não existe nada em português sobre o assunto, exceto o blog “Esportes de força” de Carlos Motta, que vem abordando de forma bem didática alguns de seus conceitos. A primeira vez que ouvi falar deles foi através da revista PowerliftingUSA, e da revista/vídeo Powerlifting Vídeo Magazine, ainda em 1995. Com o advento da Internet e a globalização, hoje é impossível achar um fórum internacional onde atletas não discutam suas metodologias diretamente, ou adaptações das mesmas.

A WSBC não é exatamente uma academia e sim um clube fechado onde só treinam atletas. Quando digo atletas não me refiro apenas a powerlifters, embora seja esse o foco e a raiz. O clube é procurado por jogadores e técnicos de futebol americano, lutadores de MMA, praticantes de atletismo, e até o bodybuilder Michael François já estiveram por lá. Seu criador, Louie Simmons, acompanhou o nascimento de nosso esporte ainda nos anos 60. Tendo iniciado como levantador olímpico, Louie experimentou muita coisa, errando e acertando. Hoje trás no corpo as cicatrizes pra contar essa história, que inclui 2 bíceps rompidos, um tendão patelar, uma ruptura de abdomen e 2 fraturas de vértebras lombares (talvez eu tenha esquecido de mais alguma coisa, desculpem).

Muito do que se faz hoje no powerlifting como boards pra supino, correntes e elásticos, é baseado nos métodos de Louie. Infelizmente ao contrário dele, que cita suas raízes russas, muitos adaptam suas idéias e apenas batizam com um novo nome, sem lhe dar crédito. O WSBC é possivelmente o clube (ou academia se preferirem) mais forte do mundo em powerlifting, não me refiro a especialistas em supino, mas a homens que tem um mostruoso total de agachamento, supino e terra:

57 membros totalizam acima de 900 kg!
9 membros totalizam acima de 950 kg (incluindo Louie já na faixa dos 60 anos)...
4 membros totalizam 1181 kg (entre eles Chuck Vogelpohl)...
6 membros totalizam 1136 kg...
1 membro fez 1227 kg (Tony Bolognone)...

57 membros agacham com mais de 360 kg...
17 membros agacham acima de 400 kg...
14 membros agacham acima de 450 kg (Matt Smith fez 527 kg)...

68 membros supinam de 270 kg pra cima!
4 supinam 363 kg...
26 supinam com 318kg...
...lembrando que são atletas de TOTAL, e não especialistas de supino!

16 fazem terra com 363 kg ou mais...
1 fez com 388kg!

É com essa elite que Louie faz suas experimentações de treinamento, e vem ao longo dos anos descartando algumas técnicas e acrescentando novas, de forma que seu sistema está em constante estado de mudança.

O termo MÉTODO CONJUGADO, freqüentemente mencionado em seus artigos, deriva se da terminologia Russa, fonte sempre mencionada por Louie como base inicial de suas idéias. “Conjugado” nesse caso, não se refere aos exercícios executados combinados sem intervalo, como nos métodos da musculação bodybuilding, mas sim a uma forma muito mais arrojada de planejamento de treino, que somente poucos anos atrás passou a ser conhecida mundialmente como “periodização não linear”.

Tudor Bompa, com seus livros traduzidos para o português (Treinamento de força consciente, Periodização no treinamento desportivo,etc. ) popularizou as idéias do russo Matveev, considerado por muitos o pai da PERIODIZAÇÃO. O modelo descrito por Bompa, no entanto, chegou ao Brasil e ao ocidente com muitos anos de atraso. Isso não impediu que as idéias descritas em seus livros fossem transformadas em “dogma”, quando se fala em treinamento “cientificamente” planejado.

Yuri Verkhoshansky, outro nome também mundialmente conhecido graças ao método de choque popularizado no ocidente como “pliométricos”, é um dos maiores críticos a esse modelo. A periodização linear, clássica, consiste basicamente em 3 períodos: Base, específico, pré competição. A idéia básica é que deve sempre haver um OFF-SEASON e só depois um PRÉ-CONTEST específico. Após competições, o alteta estará novamente em OFF-SEASON...

Exemplificando:

OFF-SEASON (período em que nos esportes realiza se o trabalho de base ou tira se férias)

Powerlifters treinam 8 a 12 semanas de musculação para hipertrofia (bodybuilding).


PRÉ-CONTEST (período em que nos esportes se treina especificamente)

4 a 6 semanas seriam dedicadas ao treinamento específico com cargas entre 80 A 85 %, e as ultimas 4 a 6 semanas incluiriam finalmente as cargas pesadas, acima de 90%, pelas quais nosso esporte é conhecido.


Como periodização é um conceito aplicado a todos os esportes, a questão é: Qual atleta de alto nível pode estar em “off-season”? Com a presença da mídia e de patrocinadores, os calendários estão cada vez mais recheados de eventos, sejam oficiais, ou não. O atleta não pode mais se dar ao luxo de estar bem fisicamente apenas 1 vez por ano.

É essa a principal crítica feita por Louie a Periodização clássica linear. Para ele, treinar dessa forma é como passar meses tentando escalar uma montanha e ao chegar ao topo, simplesmente descer tudo de uma vez, para em seguida ter que passar vários meses tentando percorrer o mesmo caminho íngreme ate o alto...

Por outro lado “burn out” ou “overtraining”, seguido de lesões, pode ser a conseqüência de um treinamento onde altas intensidades são utilizadas ininterruptamente ao longo do ano...



O MÉTODO CONJUGADO
Para resolver esse conflito, Louie montou o seu método conjugado, que consiste num sistema de treinamento onde a base e o específico são trabalhados continuamente ao longo do ano. Uma vez que os maiores benefícios para força pura estão nas cargas de 90% e acima, mas nelas também reside o maior potencial de rápido “burn out”, Louie criou um enorme complexo de exercícios que mimetizam os movimentos de competição e trabalham músculos envolvidos nos 3 powerlifts ou partes de seus arcos de movimento. O atleta treina em intensidade máxima no movimento escolhido e ao atingir “burn out”; que se traduz em estagnação da força ou mesmo em regresso, ele simplesmente substitui por outro exercício similar iniciando um novo mini ciclo de treinamento (2 a 4 semanas). Dessa forma, intensidades altas são utilizadas continuamente ao longo do ano, uma vez por semana, sem que o atleta fique estressado de sempre ter que fazer agachamento, supino e terra clássicos com cargas máximas.


Dias para ESFORÇO MÁXIMO: (90% e acima)O terra e o agachamento são beneficiados em maior ou menor grau por alguns exercícios comuns, que incluem:

Bom dia e suas variações
Terra acima do solo no rack
Terra abaixo do solo sobre steps

O agachamento é beneficiado diretamente por essas variações:

Agachamento em caixas de alturas diversas
Agachamento com barras especiais (cambered bar, safety, buffalo, etc.)
Agachamento com Manta Ray
Agachamento pela frente com ou sem suporte (front squat harness)

O supino é beneficiado diretamente por essas variações:

Boards de alturas diversas (boards são madeiras colocadas sobre o peito limitando amplitude de descida)
Carpete, colchonete ou tapete, também colocados sobre o peito
Supino no chão
Parciais de supino (últimos 10 a 3 cm) no rack, saindo da inércia dos pinos.

No sistema, um dia da semana é dedicado a cargas máximas para o supino e um dia é dedicado a cargas máximas de agachamento/terra (mesmo dia). O atleta nesse dia tenta sempre quebrar um recorde de 5, 3 ou 1 RM. Escolha SOMENTE UMA das 3 faixas de repetições.


Dias para força DINÂMICA

Esses dias também têm sido apelidados de “velocidade”, mas não sei se essa qualidade física descreve muito bem o que se passa em nosso esporte, uma vez que força e velocidade são diametralmente opostas. De qualquer forma, recomendam se percentuais entre 60 até 40% da melhor marca de competição. É nesse dia que se costumam utilizar elásticos e correntes, embora isso não seja uma regra.

AGACHAMENTO8 a 10 séries de 2 reps (podendo ser o mínimo de 6 e máximo de 12 ou 15 séries). Normalmente agacha se na caixa

TERRA
Realizado opcionalmente após o agachamento, embora nem sempre
8 a 15 séries de 1 rep – 50 % em média

SUPINONesse dia o movimento é completo, com barra até o peito ou barriga
8 séries de 3 reps, 40 a 50%

Ocasionalmente, após a ultima série de supino ou agachamento, realizam se 1 ou 2 séries de 1 a 3 reps (agachamento nunca mais do que 2 reps) com percentuais mais altos que o previsto, embora RARAMENTE MÁXIMOS, uma vez que existe um dia específico da semana para treino máximo e a idéia é combinar estímulos diferentes (método conjugado) para compor a força nos 3 powerlifts, e não causar overtraining!


FORMATO BÁSICO: (exemplo)
Segunda:
ESFORÇO MÁXIMO TERRA/AGACHAMENTO (90 a 100%)1- Terra acima do solo 1 RM (100%) = quebra de recorde
2- Exercício de assistência de terra ou agachado (60 a 80%)
3- Exercício de assistência para lombares/abdômen
4- Exercício de musculação de costas
Sexta:DINÂMICO DE TERRA/AGACHAMENTO
1- Agachamento 10x2 (50 a 60%)
2- Exercício de assistência para agachameto ou terra
3- Exercício de assistência pra posteriores de coxa e/ou lombares
4- Abdominais e/ou musculação de costas
Domingo:
DINAMICO DE SUPINO1- Supino 8x3 (40 a 50%)
2- Exercício de tríceps (extensões, boards altos, etc.)
3- Exercício de costas
4- Exercícios para ombros
Quarta:ESFORÇO MÁXIMO PARA SUPINO1- Supino no chão 1 RM (100%) = quebra de recorde2- Exercício de tríceps (extensões)
3- Exercício de costas
4- Exercícios de ombros

SUBSTITUIÇÃO DE EXERCÍCIOS:

Os movimentos que abrem o dia de esforço máximo são substituídos por outros sempre que não for mais possível quebrar um recorde.


ASSISTÊNCIA E SESSÕES EXTRA:

O atleta pode incluir outras mini sessões em jornada dupla ou tripla, sempre tomando cuidado para o volume e a intensidade não interfiram nas sessões principais.

Trabalho aeróbio, aneróbio e regenerativo podem ser incluídos em sessões curtas de 10 a 20 minutos incluindo caminhadas em aclive, arrastar trenós, mini circuitos, musculação moderada, auxiliares  do levantamento olímpico, etc.


CONCLUSÃO:

O sistema vai muito alem disso, e inclui outras ondulações anuais de volume e intensidade, mas o formato básico é exatamente esse. Para maiores informações, bebam direto da fonte:

http://www.westside-barbell.com/

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

REPROGRAMANDO O AGACHAMENTO: Box Squats: Agachamento sobre caixas e bancos



A utilização de limitadores de movimento no agachamento não é nova. Os usos mais comuns de bancos ou caixas de madeira são como simples marcadores de profundidade ( utilizando bancos de diferentes alturas limitamos que graus da amplitude queremos trabalhar ) ou como implementos de segurança: caso o indivíduo fadigue e não agüente mais com o peso, permanecerá sentado sobre o banco aguardando por ajuda, ao invés sentado sobre os calcanhares com a barra sobre as costas. Para essa ultima função no entanto existem as gaiolas ( multi power racks ), com pinos laterais fixados na altura em que se deseja agachar. Esse versátil e barato equipamento também serve para muitos outros exercícios.


Wolney, preidente da Conbrafa utilizando uma gaiola no antigo clube Boqueirão-RJ

No fisiculturismo, Arnold Scwharznegger já defendia o seu uso como parte das estratégias do “método roubado”. Ele dizia que os agachamentos profundos foram os grandes responsáveis pelo seu desenvolvimento de glúteos, lombares, e até mesmo de sua caixa torácica e seu terra de mais de 300 kg, mas que utilizando posteriormente tanto bancos limitadores quanto a smith machine, conseguira isolar mais o quadríceps e equilibrar o seu desenvolvimento com o dos glúteos... Palavras dele!




Dave Draper e Arnold nos anos dourados do fisiculturismo.


Anos mais tarde a NSCA publicaria um artigo baseado na EMG demonstrando que realmente existem diferentes níveis de atividade elétrica nos glúteos, quadríceps e femurais de acordo com a profundidade do movimento (mais uma vez os atletas acertaram)!

SOBRE ESSE TEXTO...

Esse artigo não se chama “ reprogramando o agachamento” por isso. O foco aqui é a utilização de caixas e bancos como implementos capazes de aumentar as cargas máximas no agachamento competitivo para powerlifters. Para isso temos que retomar as origens e ao seu maior divulgador, Louie Simmons da West Side Barbell Club.

Louie Simmons

Quando nosso esporte começou, em meados dos anos 60, era comum a utilização de botas do exército, ou dos primeiros protótipos de sapatos de levantamento olímpico. O estilo de agachar tambem era basicamente olímpico: bases médias ou fechadas. Com essas bases e botas, Louie competia e treinava. Com esse estilo de agachamento também viu alguns atletas romperem os tendões patelares, incluindo ele próprio e o falecido Matt Dimel que agachava com algo em torno de 450 kg.


Aproveitando a idéia de um artigo de Bill “Peanust” West e George Fren na antiga Muscle Builder Power (que anos mais tarde se tornaria a famosa Joe Weider´s Muscle&Fitness), que usavam caixas porem utilizavam as mesmas bases fechadas do agachamento olimpico, Louie adaptou o conceito e passou a utilizar bases bem abertas, o que retirava grande parte do estresse do quadríceps e tendões patelares, transferindo boa parte da carga para uma cadeia muscular muito mais forte, formada pelo glúteo, adutores, posteriores de coxa e os músculos das costas.


APLICAÇÃO DAS CAIXAS E BANCOS NO TREINAMENTO

O agachamento em caixas ou bancos, serve para ensinar o atleta a agachar para trás, e não para baixo, e a empurrar os joelhos para os lados e não para frente, ao contrário do que ocorre no estilo olímpico. Trata se então de uma verdadeira reprogramação no estilo de agachar. Outro detalhe importante é a transmissão de força nos pés. Ela se dá lateralmente, como se tentássemos abrir uma fenda no chão embaixo de nós, empurrando o solo para os lados enquanto parte da carga é transferida para borda externa dos pés. É por essa razão que a maior parte dos powerlifters na WPO que utilizam um monolift e agacham com pés afastados utilizam allstars. Se o calçado tem um salto, ao aplicar força lateralmente ele pode virar...e acredite, não seria uma boa arrumar um entorse de tornozelo com 300, 400, 500 kg ou mais nas costas...



Se você simplesmente coloca uma caixa embaixo do glúteo e desce até tocar ou sentar nela, ótimo! Essa é uma forma de se assegurar a profundidade desejada em todas as repetições, ou de não cair sentado caso não agüente com o peso em algum momento. No entanto não é só pra isso que essa técnica serve...

Para obter a real vantagem com esse método, a base deve ser aberta, bem aberta (calcanhares alem da largura do ombro no mínimo preferencialmente)! O efeito disso é a diminuição não só da distancia que você terá pra descer e subir, mas principalmente a distancia de deslocamento pra trás pelo quadril. Com a base aberta o fêmur aponta para os lados, a tíbia tende naturalmente a ficar vertical, e quanto mais vertical a tíbia, mais alto ficará o joelho, e conseqüentemente mais o quadril afundará em relação ao joelho, sem que o atleta tenha a sensação de que se enterrou até o chão pra atingir profundidade.



Tíbia vertical, joelhos sobre os tornozeos = grandes cargas e menor estresse nos joelhos. Chuck Vogelphol e Mike Rugeria nas fotos.

Esse tipo de recurso não é tão útil pra quem agacha com bases médias ou fechadas no estilo olímpico, pois nesse caso, o fêmur aponta para frente, e o deslocamento pra trás com o quadril se torna muito longo. Isso também iria transferir todo o peso pro lombar, eretores da coluna e glúteos, mas com essa posição do fêmur, o percurso é aumentado, e a participação do quadríceps diminui. Para o atleta que agacha fechado, e quer utilizar predominantemente caixas sentando para trás, é possível que o quadríceps perca força na hora do agachamento de competição, a menos possivelmente que outros exercícios complementares sejam feitos durante o período preparatório. Para o atleta que agacha aberto, o efeito de outros exercícios no entanto parece ser apenas cosmético.

Existe um outro problema mais grave, que é a perda da curvatura lombar quando se usam caixas com bases fechadas; ou caixas muito baixas pra bases muito abertas. Em ambos os casos, o atleta arredonda a coluna pra conseguir profundidade, e cai para trás em cima da caixa ao invés de conseguir controlar a descida. Então na hora de subir, tende a levantar o glúteo primeiro e cair para frente demais com o tronco. Não há nada de errado com agachamentos de tronco inclinado (Ed Coan, Steve Goggins), mas com a coluna inclinada e CURVADA como um ponto de interrogação SIM!

Como regra geral, se você esta caindo para trás sobre a caixa, sua técnica esta inadequada, uma vez que sem a caixa, você cairia para trás no chão se agachasse do mesmo jeito. Que transferência ao agachamento de competição tal forma de execução numa caixa teria ? Você deve reconsiderar a compatibilidade entre a largura da base utilizada e a altura da caixa.


AGACHAMENTO OLIMPICO

O estilo olímpico utiliza botas específicas, que asseguram a manutenção da curvatura lombar na posição funda de agachamento, e que também servem como ponto de apoio pra que o atleta chicoteie o glúteo e os posteriores de coxa contra as panturrilhas, de forma a utilizar vantagem do ciclo encurtamento-alongamento. É um movimento no geral muito mais explosivo e balístico, que tem seus prós e contras. As botas diminuem o tempo e a distancia de deslocamento dos glúteos, favorecendo uma descida vertical e extremamente rápida, pois nos levantamentos olímpicos, o atleta precisa entrar rápido embaixo da barra tão logo a aceleração da mesma após puxada do solo termine. VELOCIDADE é palavra chave nos levantamentos olímpicos. Esse é o posicionamento ideal pras cargas máximas utilizadas no powerlifting? Sinceramente acredito que não. Embora alguns treinadores utilizem cargas altas na preparação dos levantamentos olímpicos, muitos optam por algo apenas em torno de 10% acima do melhor arremesso.


Posição final dos agachamentos olímpicos: notar a base mais estreita e a relação do angulo da tíbia e posição dos joelhos.



RESUMO:

BANCOS E CAIXAS COMO MARCADORES:

1- Segurança
2- Limitam a amplitude que se deseja trabalhar, enfatizando mais ou menos glúteos, quadríceps ou posteriores de coxa. (BODYBUILDING)
3- Garantem que todas as repetições são feitas até o mesmo ponto, e evita que o atleta faça o movimento progressivamente mais curto a medida que se cansa ou que aumenta o peso.
4- Atletas agacham para baixo

BANCOS E CAIXAS PARA POWERLIFTERS

1- Reprogramam o agachamento transferindo a carga do quadríceps para o quadril e toda cadeia posterior, formada pelos glúteos, ísquio tibiais, eretores da espinha, lombares e adutores.
2- Certificam que a mesma profundidade legal é alcançada sempre.
3- Atletas agacham para trás
4- Atletas aplicam força nas bordas externas do pés.

O estilo escolhido; olímpico, intermediário ou aberto é uma questão pessoal. Existem grandes atletas agachando em ambos estilos, mas se você possui um histórico de lesões no joelho, e sofre com tendinites ou inflamações freqüentes na região, a técnica das caixas com bases abertas será de grande utilidade.

domingo, 9 de agosto de 2009

MUITO VELHO PROS ESPORTES ? treino de força e envelhecimento

MUITO VELHO PRA VOLTAR A TREINAR?
Vladimir Volkov, 50 ANOS DE IDADE acaba de bater novo recorde mundial, 306 kg de supino na categoria ate 110 kg no campeonato europeu, republica Tcheca, agosto 2009, IPF.
(fonte: powerlifting watch)

Uma das coisas que adoro no meu esporte é a longevidade dos atletas! Contrariando fisiologistas e os teóricos do exercício, os masters ficam cada vez mais fortes. Já soube de campeonato mundial na IPF com mais participantes na máster do que na open. Frederick Hatfield phd, conhecido no mundo no mundo dos esportes nos EUA começou a treinar powerlifting aos 35 anos de idade, e bateu o recorde mundial de agachamento 10 anos depois, aos 45, com 456 kg... O que isso tem a ver com você ?

Uma curta história...

Estava treinando uma cliente na academia, ela executava algumas variações de movimentos do levantamento olímpico. Minha cliente não é atleta e não tem objetivos competitivos. De longe uma fisioterapeuta observava, e no intervalo entre séries, aproximou se tentando disfarçar sua perplexidade e conversou um pouco com minha cliente. Afastou se e foi embora.

Apesar da ausência das palavras, o olhar diz tudo... “Pra que essa menina ta fazendo esses exercícios malucos? Isso faz mal as articulações”...

O monitor cardíaco de minha cliente estava ligado. Bom, com uma freqüência de 180 bpm entre séries, o levantamento olímpico é no mínimo uma ótima forma de promover elevado gasto calórico pra aqueles que desejam emagrecer mas já estão de saco cheio de ficar com a bunda amassada em bicicletas ou andando por horas sem sair do lugar em esteiras... Alguns profissionais de educação física estavam no salão de musculação e vieram conferir a freqüência cardíaca dela, surpresos: “ caramba, eu não fazia idéia de que ficava tão alto na musculação”... Na musculação??? Nem tanto! Não quando o programa utiliza predominantemente máquinas, mas sim quando você utiliza movimentos com pesos livres envolvendo grandes grupamentos musculares!

Ivan Stoisov da bulgária, campeão mundial em 2007 exibe os efeitos colaterais do levantamento olímpico: percentual de gordura baixíssimo, físico extremamente atlético e um par decente de pernas!

A surpresa tem suas razões. O inconsciente coletivo assimilou a idéia de que se você não faz aeróbios não emagrece, e isso é uma grande baboseira. Com a escolha certa de exercícios e a combinação ideal de volume a intensidade, o treinamento de força é capaz de promover modificações da composição corporal QUE NENHUMA OUTRA FORMA DE EXERCÍCIO CONSEGUIRIA...

Mas o que mais? Pra que um não atleta usaria levantamentos básicos e olímpicos?

Outra história...

Eu acabara de treinar na DNA e voltava pra casa, quando observei um senhor bem velhinho caminhando em slow motion. De repente o velhinho caiu sozinho no chão e todos correram pra ajudar. Felizmente não foi um infarto, mas infelizmente algo tão simples de se remediar: FALTA DE FORÇA!

Alguns médicos ainda insistem na mídia em mandar as pessoas caminharem, caminharem e caminharem. Elas andam, andam e depois voltam tudo (risos). Não chegam a lugar nenhum literalmente! Depois de seguir tanto tempo à frente, elas têm de voltar para trás, ou então andam em círculos como o cão que corre atrás do próprio rabo... Desculpem o sarcasmo, ele é proposital.

As atividades que trarão os maiores benefícios na prevenção dos problemas do envelhecimento são justamente as de ALTA INTENSIDADE, e as razões de um velhinho andar em slow motion (câmera lenta) são devido justamente a falta de estímulos de força e velocidade nos últimos anos de sua vida. É por essa razão que eles também desenvolvem osteoporose! CARGAS ALTAS são o estímulo certo pra colocar cálcio nos ossos, no entanto cismaram de enfiar os velhinhos dentro de piscinas, onde a atuação da força gravitacional sobre os ossos é diminuída...

Daryl Johnson, 273 kg de agachamento aos 70 anos!

Essas são algumas razões mais do que plausíveis, pra justificar a inclusão adaptada dos levantamentos básicos e olímpicos dentro de um programa de treinamento que busca qualidade de vida e prevenção dos problemas advindos do envelhecimento. Alias eu deixo aberta a questão: Os problemas do envelhecimento como a osteoporose, perda da massa muscular, perda da força, perda da velocidade, aumento da gordura são de fato causados pelo envelhecimento ou o corpo envelhece justamente a medida que deixamos de utilizar todo seu potencial de força e velocidade? O supino de 306 kg de Vladimir Volkov aos 50 anos de idade me faz crer que sim!